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Quando a Compreensão Correta se toma parte integrante de nosso ser, o resultado
é o Pensamento Correto (samyak samkalpa). Necessitamos da Compreensão Correta
como alicerce do pensamento. E se treinarmos o Pensamento Correto, nossa
Compreensão Correta irá se aprimorar. O processo de pensar é a fala da mente. O
Pensamento Correto torna a nossa fala mais clara e mais benevolente. Como o
pensamento costuma conduzir à ação, o Pensamento Correto é fundamental para nos
conduzir ao caminho da Ação Correta.
O Pensamento Correto reflete a forma como as coisas são. O pensamento errôneo
nos faz enxergar as coisas "de cabeça para baixo"(viparyasa). Mas
praticar o Pensamento Correto não é nada fácil. O que costuma ocorrer é que
nossa mente está pensando uma coisa enquanto o corpo está fazendo outra. Corpo e
mente não funcionam de forma unificada. Para isso, a respiração consciente é um
elemento importante de ligação. Quando nos concentramos na respiração, estamos
unindo o corpo à mente e tornando-os íntegros de novo.
Quando Descartes disse: "Penso, logo existo", ele estava afirmando que podemos
provar nossa própria existência através do pensamento Eu concluiria o exato
oposto: "Penso, portanto não existo."
Enquanto mente e corpo não funcionarem unificadamente, vamos continuar nos
perdendo de nós mesmos e não poderemos dizer que estamos realmente aqui,
presentes. Se praticarmos a respiração conscientemente, entrando em contato com
os elementos curadores e renovadores que já existem dentro de nós e ao nosso
redor, conseguiremos encontrar paz e estabilidade. A respiração consciente nos
ajuda a parar de nos preocupar com as tristezas do passado e as ansiedades do
futuro. Ajuda-nos a entrar em contato com a vida no momento presente. A maior
parte de nosso pensar é totalmente desnecessária, porque ele é composto de
pensamentos limitados e dotados de pouca compreensão. Às vezes parece que há um
gravador dentro de nossa cabeça - ligado dia e noite - e não conseguimos
desligá-lo. Ficamos preocupados, tensos e temos pesadelos. Quando praticamos a
atenção plena, começamos realmente a ouvir pela primeira vez a fita que está no
gravador de nossa mente, e então percebemos quais os pensamentos úteis e quais
os inúteis.
O pensamento tem duas partes - o pensamento inicial (vitarka) e aquele que se
desenvolve a partir dele (vichara). Um pensamento inicial é algo como "esta
tarde tenho que entregar o trabalho de literatura". O desenvolvimento deste
pensamento pode ser perguntarmo-nos se fizemos o trabalho corretamente, se
deveríamos reler a redação mais uma vez antes de entregar, se o professor vai
perceber que entregamos atrasados etc. Vitarka é o pensamento original e vichara
seu desenvolvimento.
No primeiro estágio da concentração meditativa (dhyana), os dois tipos de
pensamento se fazem presentes. No segundo estágio, nenhum dos dois aparece.
Nessa altura, teremos um contato mais profundo com a realidade, e estaremos
livres de palavras e conceitos. No ano passado, ao passear em um bosque com um
grupo de crianças, percebi que uma das meninas estava absorta em seus
pensamentos.
Finalmente, ela me perguntou: "Vovô monge, de que cor é a casca daquela árvore?"
"É da cor que você a vê", respondi eu. Eu queria que ela penetrasse naquele
mundo maravilhoso que estava à sua frente, e não desejava colocar mais nenhum
conceito em sua cabeça.
Existem quatro práticas relacionadas ao Pensamento Correto:
(1) "Você tem certeza?" - Se houver uma corda em seu caminho e
você enxergar uma cobra, o medo inevitavelmente surgirá. Quando mais deturpada
for sua percepção, mais incorreto será seu pensamento resultante. Por favor,
anote as palavras "Você tem certeza?" em uma grande folha de papel e pendure em
algum lugar bem visível, onde não possa deixar de ver. E repita esta pergunta
inúmeras vezes. As percepções errôneas geram pensamentos incorretos e muito
sofrimento desnecessário.
(2) "O que estou fazendo?" - Às vezes pergunto a um dos meus
alunos o que ele está fazendo, para ajudá-lo a largar os pensamentos sobre o
passado ou sobre o futuro e retornar ao momento presente. Pergunto para ajudá-lo
a existir - aqui e agora. Para responder, ele só precisa sorrir. Um sorriso é a
única coisa que demonstraria sua real presença.
Quando nos perguntamos o que estamos fazendo, fica mais fácil vencer o hábito de
querer terminar tudo rapidamente. Sorria para si mesmo e diga: "Lavar este prato
é a coisa mais importante de minha vida." Quando se perguntar, "O que estou
fazendo?", reflita seriamente sobre a questão. Caso os pensamentos o arrastem
para outras paragens, você precisa de mais atenção plena para impedir que isso
aconteça. Quando você está realmente presente, lavar os pratos pode ser uma
experiência profunda e extremamente agradável. Mas se você lava os pratos
pensando o tempo todo em outra coisa, está perdendo tempo e provavelmente
deixando de lavar bem os pratos. Se não estiver presente, nem que lave 84.000
pratos não terá mérito.
O imperador Wu perguntou a Bodhidharma, o fundador do zen budismo na China,
quanto mérito ele havia conquistado ao construir templos por todo o país.
Bodhidharma respondeu: "Mérito nenhum." Mas se você lavar um único prato com
atenção plena, se construir um pequeno templo enquanto permanece inteiramente no
momento presente - sem querer estar em nenhum outro lugar, nem desejoso de fama
ou reconhecimento -, o mérito deste ato será enorme, e você se sentirá feliz.
Pergunte sempre a si mesmo: "O que estou fazendo?" Quando você aplica a plena
atenção ao que está fazendo, sem ser arrastado por seus pensamentos, torna-se
uma pessoa feliz e um instrumento de ajuda para os outros.
(3) "Alô força do hábito!" - Nós tendemos a ser fiéis aos nossos
hábitos, mesmo aqueles que provocam sofrimento. O hábito de trabalhar demais é
um bom exemplo. No passado, nossos ancestrais precisavam trabalhar o tempo todo
simplesmente para colocar comida na mesa. Mas hoje em dia temos uma forma de
trabalhar compulsiva, que nos impede de ter um contato maior com a vida.
Pensamos em trabalho o tempo todo, e não nos concedemos tempo nem para respirar.
Precisamos encontrar momentos para contemplar as flores de cerejeira e para
tomar nosso chá com atenção plena. Nossa forma de agir depende da forma de
pensar, e a forma de pensar depende dos hábitos. Quando entendemos isso, só
precisamos dizer: "Alô força do hábito!", e nos tornarmos amigos dos nossos
padrões de pensamento e de ação. Quando aceitamos os pensamentos que estão
enraizados dentro de nós sem nos sentirmos culpados, eles perderão grande parte
de seu poder sobre nós. O Pensamento Correto sempre conduz à Ação Correta.
(4) Bodhichitta - Nossa "mente de amor" é o desejo profundo de
cultivar a compreensão dentro de nós, para poder ser um veículo de felicidade
para os outros. É a força motivadora por trás da vida consciente. Tendo a
bodhichitta como alicerce dos pensamentos, tudo o que fizermos ou dissermos
ajudará os outros a se libertarem. O Pensamento Correto acaba produzindo o
Esforço Correto.
O Buda nos ensinou muitas formas de transformar os pensamentos destrutivos. Uma
das formas, disse ele, é substituir um pensamento não-saudável por outro
saudável, simplesmente "trocando a cavilha", da mesma forma que um marceneiro
substitui uma cavilha podre martelando uma nova por cima. Se somos
constantemente invadidos por pensamentos pouco saudáveis, precisamos aprender a
trocar as cavilhas, substituindo este tipo de pensamentos por outros mais
saudáveis. O Buda comparou o pensamento não-saudável a uma cobra morta enrolada
no pescoço. Ele disse que a forma mais fácil de impedir que este tipo de
pensamento nos invada é viver em um ambiente saudável, por exemplo, numa
comunidade que pratica o viver consciente. Com a ajuda e a presença dos irmãos e
irmãs de Darma, é fácil manter o Pensamento Correto. Viver em um bom ambiente é
a melhor medicina preventiva.
O
Pensamento Correto é aquele que está em conformidade com a Compreensão Correta.
É um mapa que pode nos ajudar a encontrar o caminho. Mas quando chegarmos ao
nosso destino, precisaremos deixar o mapa de lado e mergulhar na realidade.
"Pensar sem pensamentos" é uma famosa frase zen. Quando praticamos a Compreensão
Correta e o Pensamento Correto, aprendemos a viver no momento presente, entrando
em contato com as sementes da alegria, da paz e da liberação, curando e
transformando nosso sofrimento, e aprendendo a estar disponíveis para os outros.
(Do livro “A Essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)
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